
Hoje precisei fazer uns exames num labaratório aqui em Toronto e tive minha primeira decepção com o sistema público de saúde.
O laboratório fica no mesmo prédio do consultório do meu médico de família, o que achei ótimo, porque é bem pertinho de casa e eu não precisaria andar muito logo cedo, em jejum. Ops... logo cedo?? Que nada! Não sei se são todos assim, mas esse laboratório começa a funcionar, ou melhor, abre às 8 horas.
Cheguei às 8h10 e tinha um cartaz sobre a mesa, escrito a mão, orientando os pacientes a pegarem uma senha e aguardarem. Foi o que fiz. Minha senha era número 6. Sentei e fiquei só observando. Logo vi um senhor de jaleco em uma sala ao fundo. Ele mexia em algumas ampolas. De repente entrou um rapaz pela sala de espera com um potinho cheio de urina. Entrou em uma outra sala e deixou o potinho lá. Em seguida, o senhor de jaleco buscou o pote, levou para a outra sala, abriu e despejou certa quantidade em outro recipiente. Etiquetou. Jogou o resto da urina fora. Tudo ali, com a porta aberta, com a platéia que quisesse acompanhar. (Acho que só eu, já que as outras pessoas ou liam, ou conversavam, ou resmungavam pela demora).
Finalizados os procedimentos do exame do rapaz da urina, o senhor de jaleco foi para a recepção e chamou a próxima senha: "number 2" - 8h30! Se fôssemos nesse ritmo, com um só funcionário, eu desmaiaria de fome a qualquer momento! Era só esse senhor para dar conta de tudo! Chamar os pacientes, verificar os exames requisitados, passar os dados para o computador, imprimir etiquetas... eis que uma moça "apareceu" para ajudá-lo! Não sei se eles revezam ou se é sempre assim, mas a partir do momento em que a moça chegou, o senhor ficou sendo responsável só pela triagem dos pacientes. Em seguida chegou mais uma moça e aí sim, a coisa começou a fluir. Mas eu fui ficando cada vez mais preocupada. Uma delas usava um jaleco impecavelmente encardido e uma luva cirúrgica em apenas uma das mãos. E era com essa mesma mão que ela fazia anotações, guardava potinhos, coçava a cabeça, e até atendeu ao telefone. Torci muito para não ser atendida por ela e não fui! Mas a que me atendeu não usava luva em nenhuma das mãos!!! Parei de pensar! Ela disse para eu me sentar na cabine número 1. Entrei na sala e dei de cara com um biombo de papelão, com o número 1 escrito a mão. Sentei. A moça me entregou um potinho para colher urina. E eu que achava que estava ali só para um exame (completíssimo, porque o médico ticou vários quadrinhos do formulário) de sangue. Ok... perguntei pra ela onde eu teria que ir, e ela disse: "atravesse a sala de espera, passe pelos dois elevadores e vire à direita". Lá fui eu. Colher urina num banheiro público. Voltei. Eu e meu xixi atravessando a sala de espera. Agora era eu a moça do xixi. Quando sentei novamente no biombo #1, dei de cara com 13 ampolas. Contei duas vezes, pra ter certeza. Perguntei pra moça sem luvas se aquilo tudo era pra mim e ela disse que sim. Fez um singelo furinho com uma agulha em meu braço, e tchuf, tchuf, tchuf... só enchendo e trocando as ampolinhas. Em nenhum momento olhou para minha cara pra saber se eu estava desmaiada. Lembro de ter feito exames de sangue várias vezes no Brasil, e as pessoas lá sempre perguntavam: "tá tudo bem?" - isso com 2... 3 ampolas. E aqui a mulher me tirou TREZE ampolas de sangue e nem quis papo! Quando acabou, ela disse que precisava checar meu coração. Pensei: "ah, legal! Ela está preocupada porque deve achar que estou fraca... vai medir minha pressão antes de me deixar ir embora". Pediu que eu a seguisse até outra sala, e que tirasse a blusa que ela já voltaria para completar o exame. Aí que me toquei que se tratava de um outro exame!! E eu que pensei que estava ali só para um exame de sangue completíssimo e um de urina num banheiro público! O médico não comentou que me pediria esse exame do coração. Ou será que comentou e eu não entendi?!! To mal hein!! Mas beleza, é sempre bom fazer um check-up!
Bom, saí do laboratório verde de fome, e não pude deixar de lembrar da "melhor parte" dos laboratórios no Brasil: o vale-lanchinho após os exames!! Tinham uns que davam até pão de queijo e suco de laranja! Em outros era posível escolher entre chá, café, suco, chocolate, tipo de sanduíche... Acordei, entrei no primeiro Tim Hortons que vi e mandei pra dentro uma bagle e um chocolate quente.
O objetivo principal deste post é saber das pessoas que moram no Canadá se todos os laboratórios que atendem pelo sistema público são assim. Não vou nem ficar descrevendo como são os laboratórios que eu costumava frequentar em SP! Acredito que todos saibam do que estou falando! Achei tudo muito desorganizado e fiquei pasma com a falta de estrutura e higiene. Tomara que este seja uma exceção. Se alguém puder me dar dicas de outros laboratórios em Toronto, eu agradeço. Infelizmente não sei o nome desse laboratório que fui... nem sei se tem nome. Como os exames são enviados direto para o médico, não ficamos com nenhum protocolo, onde poderia estar escrito algum nome.
Eu não quero luxo, mas acho que luvas (que devem ser trocadas a cada procedimento), touca e um banheiro dentro do laboratório, esterelizado, deveriam ser o mínimo! A parte do café da manhã eu dispenso! Paga-se caro demais no Brasil por isso, eu sei!!